terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Chega de fiu fiu: mulheres se reúnem contra assédio

Campanhas nas redes sociais visam proteger as mulheres de agressões e abusos


Toda mulher já se sentiu invadida. A primeira vez que eu me lembro foi aos dez anos, quando um cobrador de lotação me cantou a ponto de não aceitar a passagem. Eu, criança orgulhosa, fiz questão de lhe dar o dinheiro. Não queria sentir que estava trocando meu corpo, obrigatoriamente, por alguns quilômetros. Eu não pedi nem queria aquilo. Para muitos, pode até ser um benefício. Mas acredite: a maioria das mulheres não enxerga a situação dessa forma. 

Desse momento em diante, foram incontáveis as vezes que passei por casos semelhantes. Faço parte das 103,5 milhões de brasileiras (total de mulheres no País, segundo o IBGE) que já vivenciaram algum tipo de assédio ao longo da vida. Na rua, no ônibus, no metrô, no trabalho. De dia, de tarde, de noite. Vestindo uma saia, um casaco ou até mesmo uma calça jeans. E o transporte público parece ser o local mais propício para homens cometerem tais crimes. 

Segundo pesquisa divulgada em 2013 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 78% das mulheres entrevistadas, entre 16 e 24 anos, já passou por algum tipo de assédio. Os tipos são vários: 68% relata ter recebido cantadas ofensivas e 31% respondeu que já sofreu abuso nos transportes. O número mais impressionante se refere a 58,5% dos entrevistados que acreditam que haveria menos estupros se "as mulheres soubessem se comportar". 

Andar na rua sem ouvir uma cantada é quase impossível. Prova disso foi a experiência que fiz para esta matéria do Primeira Impressão. Mudei o caminho de ida e volta do trabalho para escrever sobre o assunto. Em uma semana, usei roupas diferentes: calça jeans, vestido ou saia. Blusas de manga comprida ou de alça. A abordagem foi a mesma em todas elas. 

Alguns gritaram "ô... lá em casa", outros não fizeram qualquer barulho, mas olharam como se eu fosse um produto cobiçado na vitrine de uma loja qualquer. A loja é a rua e o preço pelo produto é uma cantada que, de elogio, nada tem. Tentei chamar alguns homens que "mexeram" comigo para perguntar por que ainda assediam as mulheres dessa forma. Mas nenhum retornou minha tentativa de conversar, mesmo desconhecendo qual seria o conteúdo do bate-papo. 

Por sorte, nenhum agressor fez mais daquilo que já estamos acostumadas: palavras com teor sexual e olhares cobiçadores. Mas nem todos os casos são assim. A estudante de Jornalismo, Jéssica Trucat, de 20 anos, viveu uma experiência aterrorizante em um coletivo em Santos. Ela entrou em um ônibus com destino à faculdade, por volta das 18h. O transporte estava vazio, com uma média de 10 passageiros, algo incomum para o horário. 

Um homem de mais ou menos 30 anos começou a encará-la. Ele estava sentado na fileira ao lado dela. "Não me importei no começo, mas ele começou a me olhar muito. Primeiro pensei que seria assaltada e comecei a esconder tudo: celular, corrente e objetos de valor. Mas estava bem enganada", relembra. 

Ela só percebeu as intenções do agressor quando percebeu onde estava a mão dele. "Ele começou a passá-la por cima da calça e a fazer coisas indevidas. Paralisei na hora, não sabia se chorava, se gritava ou se corria". 

O sentimento que ficou foi de incapacidade. "Só quem passa por isso entende como é se sentir sem valor, frágil. A única coisa que consegui fazer foi pedir a Deus para me proteger". 

A sensação de ser protegida começou quando o motorista parou e anunciou que o veículo estava quebrado. Foi a oportunidade que Jéssica encontrou para se livrar do homem. "Desci correndo do ônibus e entrei em outro logo atrás, o primeiro que encontrei. O agressor continuou me encarando. Foi um alívio quando percebi que tudo havia terminado". 

Os minutos de tensão se tornaram um trauma sentido até hoje. "É difícil esquecer. Sobra apenas o medo do que vem pela frente. Tenho receio no ônibus, fico olhando para todos. O triste é que momentos como este continuam acontecendo", desabafa. 

Outra vítima do abuso no transporte público foi a estudante de Estética, Dieniffer Sousa, de 21 anos. Ela entrou no ônibus, de vestido, para fazer um exame médico. O que parecia simples se tornou um pesadelo. 

No outro lado do corredor estava um homem que a encarava. Para evitar qualquer problema, preferiu trocar de lugar e foi para perto da porta, em pé. A visível falta de interesse não foi o bastante para o agressor, que não desistiu da abordagem, e foi ao encontro dela. "Ele se posicionou atrás de mim, colocou a mão embaixo da minha roupa e com o celular na mão, ligado na câmera frontal, tentou tirar fotos da minha calcinha", relembra. 

Ao perceber o ato, a estudante colocou a bolsa na frente e ficou segurando-a para que o passageiro não conseguisse finalizar o planejado. "Só consegui fazer isso. Iria descer em uma parada deserta e fiquei com medo de ser seguida ou acontecer algo pior. Nunca me senti tão humilhada. E pior: impotente", desabafa. 

O alívio veio quando ela desceu no ponto de ônibus e percebeu que o homem tinha ficado no transporte. "Senti um alívio tão grande que até chorei. Não conseguia parar de tremer. A única coisa que eu queria era voltar para casa e não sair mais. Desejava que aquele medo desaparecesse". 


VERGONHA NA CARA 
Foi por volta das 15h30 que uma situação parecida aconteceu com a publicitária, Ana Reyna, 23 anos. Desta vez, em um terminal de ônibus. Com a sensação de ter sorte por conseguir um lugar vazio, ela sentou em um banco no espaço reservado para cadeirantes. "Um homem ficou na minha frente, tirou seu membro e começou a se masturbar, me olhando de pé a cabeça enquanto se tocava". 

Quanto mais o ônibus enchia, mais próximo o rapaz ficava. "Ele aproveitou para se encostar no apoio que os passageiros se seguram e 'chegou lá' da maneira mais nojenta possível. E sempre me encarando", conta com repugnância. 

Ao contrário de Jéssica e Dieniffer, Ana reclamou. "Perguntei se ele não tinha vergonha na cara por fazer isso. Ele aumentou o tom de voz e questionou se eu estava doida. Até me mandou parar de dizer besteiras". 

O medo apareceu quando o passageiro ameaçou agredi-la fisicamente. "Ele levantou a mão para mim. Na hora, gelei". O alívio veio quando outro rapaz interveio. O ônibus parou e os outros passageiros começaram a ofender o agressor, aproveitando para registrar, em vídeo, o que estava acontecendo. 

LEGISLAÇÃO
A única cidade da Baixada Santista com uma legislatura própria para abuso em coletivos e na rua é Santos. A lei 3.098, de 5 de janeiro de 2015, institui campanha de conscientização e prevenção de abusos sexuais contra mulheres no transporte público e em locais de grande aglomeração de pessoas no município. A campanha visa coibir as oportunidades de assédio sexual e incentivar as vítimas a denunciarem os infratores. Para isso, utiliza cartazes nos ônibus, informando que este ato é crime previsto em lei e sujeito à punição. 

A delegada da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Santos, Débora Lázaro, explica que, mesmo com uma legislação própria para o assédio no munícipio, as mulheres de outros municípios também podem denunciar o abuso em coletivos ou na rua. "Se houve o roçar do corpo ou se o agressor apalpou a mulher é considerado estupro", explica. (OLHO) 

Se a mulher sentir-se assediada, ela pode levar a denúncia para a DDM. "Nós vamos fazer uma investigação para saber se procede ou não. Nesse tipo de crime, onde o ato sexual não é consumado, não existem vestígios. Por isso, é importante uma testemunha". 

Apesar dos problemas constantes, a DDM de Santos não registrou qualquer caso de assédio nos coletivos. Quem sofre o abuso é importante levar a denúncia adiante para evitar que outros casos assim aconteçam. "O agressor é julgado como estuprador", afirma a delegada. Em casos onde não há contato dos corpos, quando a agressor apenas 'se toca', a delegada diz que a vítima também pode denunciar. "Neste caso é configurado atentado ao pudor". 

Para denunciar, a vítima pode entrar em contato por meio da Central de Atendimento à Mulher, o 180, ou se encaminhar à DDM de Santos, localizada à Rua Assis Corrêa, 50, no Gonzaga. O local funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 19h. Se o crime ocorrer em outro dia ou horário, a mulher pode se encaminhar à delegacia-sede no mesmo endereço.


FIU FIU JÁ ERA
Chega de fiu fiu. Esse é o nome da campanha criada em 24 de julho de 2013 pela Think Olga, grupo de sites na internet que criou o slogan de combate ao assédio sexual em espaços públicos. Inicialmente, foram publicadas ilustrações com mensagens de repúdio a esse tipo de violência que, após ser muito bem-vinda e compartilhada nas redes sociais, se tornou um grande movimento contra a agressão. 

O assédio repudiado pelo projeto se refere a comentários de teor obsceno, olhares, intimidações, toques indesejados e importunações de teor sexual. A jornalista Karin Hueck elaborou um estudo online, lançada pelo Think Olga, para averiguar de perto a opinião das mulheres em relação às cantadas de rua. Mais de 8 mil participantes responderam. Entre elas, 98% já sofreram assédio, 83% não achavam legal e 90% já trocaram de roupa antes de sair de casa por conta do assédio. 

A repercussão foi tão grande que foi criado o site www.chegadefiufiu.com.br com o Mapa Chega de Fiu Fiu, uma ferramenta para tornar as cidades mais seguras para as mulheres. Em Santos, até o momento são 12 registros. Lá a internauta pode marcar onde aconteceu o assédio, avisando a outras pessoas os locais onde o abuso acontece. 

Mas essa não é a única campanha do tipo que ganhou força na internet. A página Vamos Juntas? convida mulheres a acompanhar outras quando se encontrarem sozinhas na rua. O objetivo é, além de fazer novas amizades, tornar-se uma proteção. 

Na página do Facebook (www.facebook.com/movimentovamosjuntas) já são quase 210 mil reunidas. Neste espaço são publicados imagens com relatos de mulheres que, inspiradas pela campanha, ajudaram umas às outras. A repercussão foi tão grande que foram criados grupos com participantes de cada estado.

Matéria para o jornal laboratório Primeira Impressão (Ano XX - número 155), da Universidade Santa Cecília

Diferente, reverente e descontraído

Repórter da TV Record Litoral, Alexandre Piqui, se destaca com seu jeito divertido de contar histórias 

Ele já foi o super-herói Robin; modelo feminino plus size (acima do peso); já apareceu de sunga na TV; e até fez papel de caça talentos na praia. É impossível descrever o repórter da TV Record Litoral, Alexandre Piqui, 33 anos, sem contar algumas de suas peripécias em frente às câmeras. Ele, que jura não fazer humor, diz que traz um tipo mais divertido de Jornalismo. "É algo diferente, irreverente e descontraído", descreve. "Não é humor, pois isso é ter certeza que vamos arrancar risos das pessoas.".  
Sua história com a profissão começou cedo. "Desde criança, sempre sonhei em ser jornalista. Essa era a única coisa que eu sabia". Foi assim que o repórter começou a contar sua trajetória. O jornalista, que se formou em 2007 na Universidade Católica de Santos, conseguiu realizar o sonho de contar histórias graças a uma bolsa de estudos de 100% concedida pela instituição.  

Funcionário da filiada da Record no litoral paulista desde que se formou, ele passou pelos cargos de auxiliar de câmera, produtor e, finalmente, repórter - cargo que ocupa até hoje. "O jornalismo descontraído veio com o tempo, logo que cheguei na emissora. Pouco sabia desse estilo e minha única referência era o Márcio Canuto, da Rede Globo". 

O repórter sempre gostou desse estilo, mas nunca imaginou que iria trabalhar desta forma. Foi graças a um ex-diretor da TV que ele mergulhou de cabeça na diversão em frente às câmeras. "Ele viu na internet um quadro da Record de Santa Catarina chamado Chutando o Balde, que mostrava os problemas dos bairros e ajudava a solucioná-los". O quadro, existente até hoje, é um dos destaques da emissora. "Meu jeito descontraído ajudou, até mesmo meu biotipo meio gordinho e minha aparência". 

O jeito divertido acompanha o repórter em todo lugar. "Sou assim em casa, na escola e na rua. Gosto de brincar e fazer as pessoas sorrirem". Mas se engana quem pensa que foi tão fácil assim. O repórter enfrentou desconfianças de colegas de trabalho que não enxergavam o exercício da profissão naquele estilo. "Na época eu me questionei muito se deveria fazer isso. Tinha medo de ficar rotulado, mas decidi apostar". 

Mesmo se destacando por seu carisma e diversão, Piqui não se limita aos quadros do programa Balanço Geral, jornal da emissora. "Eu gosto de trabalhar com o jornalismo irreverente, mas não deixo de fazer as matérias do dia-a-dia, gerais, factuais e de esporte".  

O segredo para se destacar com seu estilo é, segundo ele, não deixar a essência do jornalismo. "O modo de contar histórias é diferente, mas mantenho o que aprendi: não invento nada e trabalho dentro da ética, da imparcialidade, sempre apurando as informações que consigo". E completa: "não me sinto menos jornalista que meus colegas". 

FACULDADE 
Para o repórter, este estilo ainda é pouco explorado nas universidades. "A faculdade já deveria ter aberto a mente dos alunos para esse tipo de jornalismo". Piqui conta que não imaginou trabalhar dessa forma porque não conheceu no curso. "A Record é uma das pioneiras nesse estilo e hoje vemos outras emissoras apostando no jornalismo mais descontraído", lembra.  

A falta de conhecimento desse estilo acaba limitando o aluno. "O estudante não pode achar que existe só o jornalismo 'quadradinho'. Ele acaba criando uma barreira e não pensa em fazer algo diferente". 

O repórter conta que espera abrir o caminho para novos profissionais. "Espero inspirar as pessoas nesse tipo de jornalismo. O estudante é quem define qual estilo ele quer". Para ele, o aluno pode usar seu estilo desde que não esqueça dos princípios básicos, como a ética, a apuração e a imparcialidade. 

"O quadro Chutando o Balde ajudou muitas comunidades a resolverem seus problemas. E foi juntando a seriedade do programa com o jornalismo descontraído que conseguimos isso", relembra. E dá a dica para quem quer seguir seu exemplo: "vai em frente, dá a cara a tapa. Muita gente vai falar que isso é errado, mas siga sua consciência, desde que não fuja dos princípios da profissão".

O texto foi escrito para o jornal laboratório Primeira Impressão (ano XX - número 154) 

Projeto elimina carne às segundas-feiras nas escolas públicas

Vereador Benedito Furtado diz que objetivo é oferecer refeições saudáveis no município

Você conseguiria tirar a carne do seu cardápio por um dia na semana? O vereador Benedito Furtado (PSB) apresentou um projeto de lei na Câmara de Santos para implantar no Município a Segunda Sem Carne, campanha mundialmente conhecida. A primeira audiência pública aconteceu no dia 10 de março na sede do Legislativo. 

Se a lei for aprovada, os refeitórios públicos de Santos, como nas escolas, vão trocar, às segundas-feiras, a carne animal por alimentos que contenham proteínas. O vereador conta que as unidades de
saúde que servem comida não estão incluídas no projeto. “Futuramente queremos tentar parceria com o Governo do Estado para colocar a campanha no Bom Prato”.

O objetivo é oferecer refeições saudáveis aos munícipes. E o foco nas unidades de ensino não é à toa. “Queremos conscientizar nossas crianças sobre a importância da alimentação balanceada e os malefícios do consumo excessivo de carne animal”.

O vereador, que está em seu quinto mandato, conta que o projeto é só uma semente que está plantando. “Ele é o começo para algo maior que queremos trazer ao Município. Queremos que os santistas entendam a importância da preservação do meio ambiente”.

BENEFÍCIOS
A campanha Segunda Sem Carne tem como slogan “Pelas pessoas. Pelos animais. Pelo planeta”. Comer menos carne de origem animal traz benefícios à saúde. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Harvard aponta que essa redução traz menos riscos de câncer e doenças cardiovasculares.

A importância da campanha para o meio ambiente está na redução de consumo de água, por exemplo. “Há mais de 7 bilhões de pessoas na Terra. Para produzir carne para todos, é preciso criar milhares de animais que consomem água, comida, espaço e produzem uma grande quantidade de excrementos, que causam poluição e contaminação”, diz a gerente de campanhas da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), Mônica Buava. A instituição foi a responsável  por trazer a Segunda Sem Carne para o Brasil.

Produzir um quilo de carne bovina no Brasil equivale a emitir 335 quilos de gás carbônico, como aponta um estudo de 2012 publicado por Kurt Schmidinger, da Universidade de Viena, e Elke Stehfest, da PBL Netherlands Environmental Assessment Agency, agência holandesa que avalia o impacto ambiental da atividade humana. Além disso, a Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que o setor pecuário é responsável por 14,5% das emissões de gases do efeito estufa globais oriundas de atividades humanas.

Na justificativa para implantar a campanha em Santos, o vereador Furtado cita mais dados. Entre eles está outro levantamento feito pela ONU que aponta o uso de 72% da água disponível no Brasil sendo utilizada na agricultura. “Para se ter ideia do volume de água gasto com a produção de carne de origem bovina, a cada um quilo, gastam-se 15 mil litros de água, desde a alimentação do gado, banho dos animais e consumo dos mesmos”, mostra um trecho do projeto de lei.

Sobre os dados de economia da campanha, Mônica afirma que é difícil saber o impacto da Segunda Sem Carne no País. “São milhares de apoiadores, pessoas que muitas vezes nem temos acesso e a cada semana mais e mais pessoas estão aderindo”. Os dados que a SVB tem são com base no projeto Merenda Vegetariana, que acontece na cidade de São Paulo desde 2011. A cada 15 dias, cerca de 937 mil alunos, estudantes desde a creche até à Educação de Jovens e Adultos, consomem pratos vegetarianos.

A CAMPANHA
A campanha Segunda Sem Carne chegou ao Brasil por meio da Sociedade Vegetariana Brasileira, em parceria com a Secretaria do Verde e Meio Ambiente de São Paulo. Ela foi lançada na cidade em 2009, mas já acontece em outros países, como Estados Unidos e Inglaterra, onde é encabeçada pelo ex-Beatle, Paul McCartney. No Brasil, a campanha também chegou em outras cidades, como Curitiba, Rio de Janeiro e Brasília.

O objetivo é conscientizar as pessoas do impacto que o uso de produtos de origem animal na alimentação tem sobre a sociedade, a saúde humana e o planeta, convidando-as a tirar esse alimento do prato pelo menos uma vez por semana.

Segundo Mônica, os serviços da campanha vão desde a conscientização dos munícipes e funcionários públicos, até leis e programas que implementam uma alimentação 100% vegetariana em escolas públicas e outros serviços. 

Texto para o jornal laboratorial Primeira Impressão (Ano XX - número 153) da Universidade Santa Cecília. 

O colecionador de versos

Aos 97 anos, Francisco Gonçalves Gamero coleciona poesias. Os livros que ele já escreveu, editou e imprimiu contam parte de sua história. No ano passado, lançou o Francisco – poeta do coração e dividiu com leitores anônimos os versos que guardava em suas pastas e prateleiras

A casa é de esquina, no Canto do Forte, em Praia Grande, litoral de São Paulo. Logo na entrada, uma área com grama à direita e uma porta que dá em um corredor. Ao primeiro toque da campainha, um cachorro aparece para recepcionar o visitante. O ambiente interno é espaçoso e ‘chique’. Mas o encontro não é na sala com TV de cinquenta e tantas polegadas e nem na cozinha bem arrumada. É no quartinho, nos fundos da casa, que Francisco Gonçalves Gamero, de 97 anos, conhecido como seu Chico, costuma trabalhar. Foi ali que ele gerou parte dos versos de seu último livro, publicado no ano passado. 

No caminho para os fundos da casa, Francisco conta que a entrevista quase não acontece. Na semana anterior ao encontro, seu Chico teve uma crise de pressão alta por conta de um remédio novo que está tomando. Mas o ‘doutor’ o tranquilizou. “Ele falou que estou mocinho, ainda. Que meu coração está forte”.

Ele mostra o quartinho com satisfação e cada item guardado ali marca algum ponto da sua vida. O entrevistado se apressa em pedir desculpas pela ‘bagunça’. “Estou trazendo as coisas aos poucos para cá e ainda nem tive tempo de organizar tudo”. 

A primeira pergunta não parte da repórter, mas do próprio entrevistado. “Quem me indicou a você?”, questiona. Tento explicar que o caminho para chegar até ele foi longo, quando seu Francisco pede desculpas novamente: ele não escuta bem e usa um aparelho auditivo, que no momento da entrevista estava em manutenção.

Para manter a conversa, a solução é falar o mais alto possível. Vez ou outra, ele pega uma palavra e muda totalmente o foco da pergunta. E quem se importa? Cada vez que abre a boca para falar alguma coisa, seu Chico se diverte com suas próprias histórias e traz à tona lembranças vividas em um passado distante, mas nunca esquecido.

Bem abaixo da escada, há uma cama simples, que ele “usa de vez em quando para dormir”. O cômodo guarda o necessário: uma pia para lavar as mãos, muitos livros na prateleira acima da cama, notebook e dezenas de pastas com recortes de jornais e textos impressos. 

As pastas coloridas e divididas em temas ficam guardadas em sua bancada, junto com outros papéis e o notebook, de onde saem os versos. Seu Chico mostra as pastas. Entre tantas, estão as nomeadas com a caligrafia caprichosa do dono, como meio ambiente, Praia Grande e com o nome de dois jornalistas que são seus ídolos: João Mellão Neto, colunista do Estado de S. Paulo, e Washington Novaes, jornalista que trata temas de meio ambiente e povos indígenas no mesmo jornal.

“Eu assino o ‘Estadão’ há mais de quarenta anos”, gaba-se. E guarda, também, recortes de outros veículos, como o Gazeta do Litoral, e daqueles para o qual escreveu alguns artigos. Nas matérias que citam seu Chico, ele faz questão de grifar com marca-texto. Aponta para o parágrafo onde estão as suas aspas e comenta a notícia, sem esconder o orgulho.

Mas os motivos de orgulho do senhor de 97 anos, nascido na cidade de Juruaia, Minas Gerais, no dia 03 de setembro de 1916, são também as relíquias. Exibiu com gosto sua coleção de seis volumes do Curso Prático da Língua Portuguesa, do ex-presidente do Brasil, Jânio Quadros, que governou o País de janeiro a agosto do ano de 1961. 

POESIAS
Enquanto mostra sua coleção de livros e os recortes de jornais, seu Francisco conta como aprendeu a ler e escrever. “Fiz aulas em uma escola lá de Minas, mas aprendi, mesmo, lendo jornais”. De família simples, de pais lavradores e mais 12 irmãos, Francisco cursou escolas rurais em Muzambinho (MG), dos 13 aos 16 anos. 

Chico aprendeu poesia no ‘ginásio’. Foi lá que soube o que era rimar e metrificar os versos. Por volta dos 15 anos escreveu uma de suas primeiras poesias para uma namorada (“namoro inocente, de pegar na mão, nada de beijo”, relembra). São os únicos versos seus que memorizou. Ele recita, esquecendo algumas palavras, mas orgulhoso por ainda se lembrar da maioria delas.

Ah... tivesses meus desejos,
Pelo ardor meus loucos beijos,
Em enleios sensuais...
Levar-te-ia nos meus braços
Prendendo-te pelos laços
De abraços matrimoniais

Foi quando começou a trabalhar em São Paulo, em uma indústria do setor têxtil, que seu Chico passou a se dedicar mais à poesia. Como encarregado de sessão, passava o tempo vago na máquina de escrever, registrando seus versos. E se tornou conhecido no local por conta disso. “As moças descobriram que eu gostava de escrever e escreviam para mim. Tem até carta de apaixonadas”. Seu Chico mostra diversos papéis com poesias e cartas destinadas a ele, datadas daquela época. Ele escolhe uma para me mostrar e, sem óculos, lê as palavras que recebeu há tantos anos.

Querido Chiquinho,
Se Chiquinho ocê num arrespondeu u meu urtimo biete será qui vosmecê num ta tendo tempo?O num ta mal querendo papo cum a pobri cabocla aqui? (...) Sabi Chiquinho estô afrita pra saber u que rá qui eu te maguei com a urtimo bieti, se é istu aconteceu peçu perdão di jueio”.

LIVROS
Seu Chico começou a fazer – literalmente - livros bem antes de publicar o Francisco – Poeta do Coração. “Eu escrevia as poesias na máquina de escrever, tirava cópias e encadernava. Fazia uns três exemplares de cada”. E mostra todos com muito orgulho. No total, são seis, entre eles Do passado ao presente, do amor à saudade, Chamas e Cinzas, Pétalas do meu floral e Fragmentos de poesias

Lançado ano passado, ‘Francisco – poeta do coração’ é uma compilação das obras anteriores. E seu autor gosta de dizer que seu estilo é o antigo, mesmo. O clássico. Com rimas e métricas. “Hoje ninguém mais faz isso. Eu faço de gosto”. E afirma que escreve de tudo: amor, fé, Deus. Tem poesia até sobre o lugar onde cresceu. “Se quiser, posso fazer uma poesia sobre a morte ou qualquer outra coisa agora”. 

Foi a filha, Eliana Gonçalves Malho, quem decidiu levar a ideia dos livros adiante. “Ela pegou o livro, corrigiu todos os textos, tirou cópia e levou para uma gráfica de Botucatu (interior de São Paulo)”. Depois de uns dias, seu Chico recebeu a obra pronta, para algumas correções. “Fizeram uns 300 exemplares, que custou mais ou menos a dez reais cada”. 

O lançamento ocorreu no ano passado, em 14 de junho. “Teve uma festa muito bonita, reportagem na TV Tribuna, veio a Prefeitura de Praia Grande e tudo”. E ele não para: já está adiantando outro livro, uma mistura de biografia com poemas. Engana-se quem acha que esse vai demorar para ser publicado. “Estou escrevendo para lançar em julho”, conta.

CENTENÁRIO
Viúvo há três anos, seu Francisco tem duas filhas – Eliana Gonçalves Malho e Maria Nazareth Golçalves. Entre seus passatempos favoritos, está escrever poesias no computador. Mas não quer saber de internet. “Comecei a usar essa tal da internet, mas vi muita coisa ruim. E estava me atrapalhando de escrever as poesias, porque perdia muito tempo na internet. Não quero saber mais disso, não. Mandei tirar daí”. 

Um dos desejos de seu Chico é chegar aos cem anos. “Quando completei 90 anos, minha filha me fez uma festa linda em um restaurante de São Paulo. No agradecimento, fiz uma promessa: convidei todos para o meu centenário”.

Chico fez questão de explicar a capa do livro e disse uma das frases que mais marcou a conversa. “Sempre há paz onde existe amor”. Essa é a ideia que tenta passar na foto que estampa a obra. “O cachorro e eu somos o amor e a represa atrás é a paz”. A foto foi tirada em um recanto em Itu (SP), em um condomínio fechado, onde tem alguns chalés. Na imagem, Francisco aparece sorridente, em um local que adora estar – no meio da natureza, que tanto aparece em seus versos. E que vai continuar aparecendo em tantos outros que virão. Porque, com a boa disposição que tem, seu Chico ainda vai escrever muitos versos rimados e metrificados, do jeitinho que gosta. Quem disse que é tarde demais para ser poeta? Francisco é e sempre foi um poeta. Um poeta do coração.

Matéria realizada em 2014 para a disciplina de Laboratório de Texto. O texto é para a editorial de Cultura para a revista com tema Idosos. Foto: Guilherme Almeida.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Uma nova mídia, uma outra forma de informar

Antes diário virtual. Agora, meio de comunicação. Assim é o blog, ferramenta que virou tendência na internet. Todo internauta pode criar o seu e falar o que quiser nele. Vale desde vida pessoal até assuntos como maquiagem, economia, política e crônicas. Você até deve conhecer algum, mesmo que não o leia com frequência. O fato é que, na web, os blogs estão cada vez mais presentes, tanto na vida do público quanto na vida dos grandes portais de notícia.

E os blogs nem sempre são escritos por pessoas que nasceram com a internet e a tecnologia a sua volta. O jornalista Ricardo Kotscho, por exemplo, é repórter desde 1964 e já passou por diversos veículos importantes no país. Atualmente, além de ser comentarista em um canal de TV e repórter especial de uma revista, ele ainda mantém um blog pelo R7, portal da Record.

Aqui na Baixada Santista, um dos nomes mais conhecidos é o da jornalista Vanessa Faro, apresentadora do Tribuna Esporte na TV Tribuna, afiliada à Rede Globo. De 2011 ao fim de 2013, Vanessa teve um blog no site da afiliada, onde ela escrevia tanto sobre esportes quanto bastidores da notícia e as viagens que fez. Há 18 anos na profissão, Vanessa conta que ter esse espaço na internet foi uma forma de se atualizar, de se refazer. “Com o tempo, você corre o risco de ficar estagnado, entediado. E o blog foi importante para dar essa renovada, um objetivo novo e pessoal”.

Quando houve a transição para o G1 e Globoesporte. com, em 2012, Vanessa continuou com o blog, desta vez no Globo Esporte. No portal, as postagens tinham que ser, obrigatoriamente, sobre esportes ou ter uma ligação com eles, o que a impedia de falar sobre assuntos mais pessoais, como as viagens. Vanessa, então, usava o blog para dar dicas de seletivas, peneiras, escolas, cursos e até mesmo mostrar os bastidores de alguma entrevista. “Muita coisa que não tinha espaço na TV, ia para o blog”.

O público, que era ativo nos comentários, dava sugestões de matérias que, muitas vezes, eram aproveitadas tanto na televisão quanto no site. Esse contato com os telespectadores e leitores é fundamental para Vanessa, que chegou a fazer amizades por conta do blog. “O fundamental nesse meio é que você aproxima o jornalista do povo, de novas opiniões”.

O site do Jornal A Tribuna também aderiu à tendência e possui blogs dos mais variados assuntos: futebol, culinária, moda, Fórmula 1, saúde, entre outros. Eles apareceram no portal quando este foi reformado e ampliado em 2009. De início, somente cinco faziam parte. “Na época, eram quatro blogs de futebol – Santos, Corinthians, São Paulo e Palmeiras – e um de Fórmula 1”, conta a editora de internet, Maria Estela Galvão. Atualmente, o site conta com 26 blogs e mais cinco estão nos planos.

Em sua maioria, os blogs são escritos por pessoas fora da redação, já que nem todos são repórteres do jornal A Tribuna. O assunto, segundo Maria Estela, fica a critério do blogueiro, que tem liberdade e responsabilidade sobre o que posta. “Ele costuma ter um pouquinho mais de liberdade, afinal o espaço é mais pessoal, mais opinativo que informativo. O que nós acompanhamos é a seriedade. Já tirei blog do ar porque o blogueiro não postava regularmente”.

Fora da blogosfera, Vanessa Faro sente falta das postagens e não vê a hora de voltar. A jornalista, que se apaixonou pelo meio, conta que está com projetos futuros para trazer essa ferramenta de volta à sua rotina. “Quero retornar pelo Globo Esporte ou pela TV Tribuna ou até mesmo fazer algo meu, uma coisa abrangente, com uma linguagem mais legal”, conta animada.

Vanessa Faro enfatiza que o blog não foi só uma afirmação profissional. Para ela, a satisfação é ainda mais pessoal. “Nessas horas, sinto que estou ajudando as pessoas. Foi por isso que escolhi seguir essa profissão”. E, orgulhosa, completa: “Eu estou escrevendo uma parte da minha história, da história de outras pessoas, de uma época. E até de uma etapa do Jornalismo”.


Matéria realizada no primeiro semestre de 2014 para a disciplina de Laboratório de Texto em uma revista com o tema Tecnologia. Foto: arquivo pessoal.